Avatar Sem 3D

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data12/7/2010 16:02:44
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resumoAvatar não é nem tão bom nem tão ruim quanto pretendem uns e outros críticos. E, provavelmente, terá seus méritos melhor avaliados com o tempo.


Avatar Sem 3D


O lançamento de Avatar em DVD e na televisão – inicialmente, apenas no pay-per-view – é uma boa oportunidade para refletir sobre alguns pontos da ficção científica no cinema.
O primeiro aspecto, e o que salta aos olhos – sem trocadilho – é que, sem a tecnologia 3D fica mais fácil verificar os aspectos negativos que a imprensa tanto ressaltou com relação ao filme. Ou seja, alguns clichês óbvios no que diz respeito ao relacionamento entre terrestre e extraterrestre, ideias "chupadas" de outras fontes – como o mais do que óbvio caso das montanhas flutuantes, que Roger Dean já havia desenhado em capas de discos dezenas de anos antes – e outros pontos.
Em outras palavras, sem a tecnologia da terceira dimensão, Avatar se transforma num filme de ficção científica mediano, com excelentes valores de produção, é claro, com um visual mais do que eficiente para o que se propôs, mas ainda assim com uma história despretensiosa. É legal, é gostoso de assistir, mas não é um candidato a clássico.
Mas isso me parece apenas uma parte da história. Já vai longe o tempo em que era possível gastar muito dinheiro num filme que grande parte do público, e da crítica, poderia considerar "impenetrável" ou que fosse, como suponho que se dizia em 1968, "filme cabeça", como foi o caso de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. O filme de Kubrick custou 10 milhões e 500 mil dólares, uma quantia inacreditável para a época, ainda mais se considerarmos que, em 1977, George Lucas gastou 13 milhões em seu Guerra nas Estrelas. O segundo da série (ou quinto), O Império Contra-Ataca, feito três anos depois, custou 18 milhões; e O Retorno de Jedi, de 1983, chegou a 32 milhões e 500 mil dólares de custo. Vendo outros grandes sucessos da época, vemos que as quantias eram essas mesmo: Jornada nas Estrelas – O Filme (1979), 35 milhões; Alien, O Oitavo Passageiro (1979), 11 milhões. Só Super-Homem, O Filme (1978, depois rebatizado Superman) superou essa equação, com incríveis 55 milhões de custo.
Os filmes com custos mais elevados dificilmente são uma "aposta", ou trabalham com uma história mais densa. E isso ocorre por uma razão óbvia. Os produtores e investidores precisam ter seu dinheiro de volta, de preferência com lucro. Ninguém iria gastar os 237 milhões de dólares que custou Avatar se houvesse riscos medianos de não reaver esse dinheiro. Para reaver o dinheiro, os produtores precisam de público, muito público; na verdade, um volume absurdo de espectadores e de pessoas que consumam os produtos associados ao filme em questão. E ninguém consegue um volume absurdo de audiência a não ser apresentando uma história com ingredientes que se situem dentro de um determinado parâmetro de, digamos, entendimento – ou aceitação, ou imediatismo.
Existem centenas de grandes histórias de ficção científica que jamais foram filmadas, em parte porque exigiriam valores de produção elevadíssimos, e o resultado em termos de bilheteria pode ser considerado "arriscado".
Kevin Costner gastou 175 milhões de dólares em seu Waterworld, e quase foi à falência por isso; o retorno do público foi pequeno. Não que o filme tivesse uma história de padrões elevadíssimos, ou que fosse um "filme cabeça", mas ainda assim não trazia os elementos indispensáveis para se construir uma audiência monstruosa – aqueles "momentos" que trazem lágrimas aos olhos dos mais sensíveis, mas não tanto que afaste os machões e tarados por filmes de ação; aqueles outros momentos que despertam a adrenalina dos mais agitadinhos, uma certa dose de violência que leve os homens jovens ao cinema, mas que ao mesmo tempo não afaste suas companheiras; para não falar, é claro, do aspecto visual imponente. E por aí vai.
Imagino que os produtores de Hollywood tenham equações mais ou menos prontas para esse tipo de empreendimento, e não é de se estranhar. Como exrecício de fantasia, posso imaginar que, se eu fosse rico e me pedissem para investir 100 milhões de dracmas numa superprodução baseada em, digamos, Um Caso de Consciência (A Case of Conscience, 1958), livro de James Blish, eu responderia: na na ni na não. Ora, o livro é excepcional, entre os clássicos da ficção científica, mas até eu, que sou mais bobo, sei que se custasse uma fortuna como a de Avatar, jamais iria se pagar. Ia preferir investir em Avatar mesmo.
Os 13 milhões de dólares gastos em Guerra nas Estrelas podem não parecer grande coisa hoje em dia – existem atores que ganham isso, ou até mais –, mas na época era um valor considerável. E aqui eu corro o risco de ser rasgado em partes pelos amantes de Guerra nas Estrelas, mas o filme segue exatamente esse padrão para grandes produções: não arrisca, e apresenta aqueles momentos tão importantes para cativar um grande público; desde o confronto bem definido entre Bem e Mal, até as relações amorosas, situações engraçadas, etc etc. Não se façam de desentendidos, que vocês sabem muito bem do que eu estou falando.
Hoje tornou-se ainda mais difícil fazer essas comparações a partir dos orçamentos dos filmes, porque os valores se multiplicaram de tal forma que chega a ser ridículo. Existem filmes com orçamento de 70, 80 ou 100 milhões de dólares que, na tela, não dão a impressão de terem gasto sequer 10 milhões. Os salários de atores são monstruosos; já li e ouvi críticos e especialistas em cinema dizendo que, nos custos, já estão incluídos os ganhos do diretor e sabe-se lá de quem mais; e estão incluídos os gastos com publicidade e divulgação da obra, o que pode tomar até metade do orçamento.
E os custos só ficam mais elevados. É difícil ver uma adaptação de obras de peso – como a que citei, entre tantas outras – porque parece que os custos sobem independente do que o filme realmente deveria custar. Como diz o empresário interpretado por John Hurt em Contato: por que fazer um, se podemos fazer dois pelo dobro do preço?
O caso é que as novas tecnologias do cinema também tem seu custo, e em Avatar não seria diferente. A tecnologia inovadora para a época, de Guerra nas Estrelas e Contatos Imediatos, por exemplo, tornaram-se comuns anos depois. Hoje, qualquer boa produção de ficção científica para a TV traz efeitos visuais melhores. A tecnologia custa caro no início, e depois se dilui. Imagino que o atual 3D possa seguir o mesmo caminho. Claro que já tivemos 3D antes, e não teve muito sucesso, mas acho que dessa vez vai...
Com custos mais baixos, especialmente aqueles da transmissão e captação de imagens em 3D para a TV, um dia teremos uma série de filmes breguinhas usando a tecnologia, e séries na TV e tudo mais. É como as coisas acontecem.
Resumindo, acho um exagero condenar Avatar por ser tão... rasteiro, simplezinho, óbvio? Omérito da produção é bem claro. Ainda assim, a famosa "Academia" percebeu e, pelo menos, acertou ao não lhe conferir o prêmio de melhor filme, o que seria um absurdo. Se houvesse um prêmio de melhor aposta em tecnologia, talvez...