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O MAL E O TERROR ABSOLUTOS

Ensaios

autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data23/2/2017
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A presença do Mal na Terra, nas histórias de H.P. Lovecraft.

 

O MAL E O TERROR ABSOLUTOS


A presença do Mal na Terra, nas histórias de H.P. Lovecraft.


No início do século 20, antes mesmo da ficção científica receber a denominação pela qual é conhecida até hoje, H.P. Lovecraft imaginou o mal absoluto, o terror supremo, na forma de seres extraterrestres, deuses praticamente imbatíveis, que teriam chegado à Terra em épocas imemoriais.

 

H.P. Lovecraft, em 1934 (Foto: Lucius B. Truesdell).

Para ele, um relato de terror deveria necessariamente buscar a superação das leis cósmicas tidas como imutáveis. O maior terror encontrava-se nas estrelas, nos espaços inimagináveis para os seres humanos, o infinito, uma distância e um tempo que nossa mente não consegue imaginar. Como poderíamos ter uma ideia do que seja um espaço sem início e sem fim? E pior: como podemos imaginar que um ser terrível está no centro do infinito, blasfemando e cuspindo, como faz o horrendo Azathoth? Ele não tem forma e é cego, mas é de uma perversidade sem limites, espalhando a confusão no universo. Juntamente com ele, surgiu Yog-Sothoth, um deus do Mal que não está sujeito às leis do tempo e do espaço, coexistindo com o tempo e estendendo-se a todo o espaço. E Nyarlathotep, um representante do elemento terrestre; ou Cthulhu – um dos mais populares e que deu nome à série de histórias conhecidas como “Mitos de Cthulhu” – que mora no fundo do mar, na cidade aterrorizante de R’lyeh. São incompreensíveis, capazes de destruir a mente simples dos humanos ao mais simples contato, e tão repletos de maldade que a simples menção aos seus nomes seria capaz de trazer o Mal à tona.

Para Lovecraft, o maior terror estava nas estrelas, no espaço e tempo que a mente humana não pode imaginar (Pequena Nuvem de Magalhães. NASA/CXC/JPL-Caltech/STScI).

Apesar de não mais se encontrarem no planeta, sua presença ainda se faz sentir por toda a parte, e mesmo os mais simples indícios de sua passagem por aqui podem levar aquele que entrar em contato com eles à loucura.
Segundo August Derleth, o maior incentivador e conhecedor da obra de HPL, a estrutura dos Mitos segue uma formulação básica na história humana, representando a luta entre o Bem e o Mal. E, ainda que HPL tenha dado uma atenção especial à atuação do Mal – uma vez que visava descrever o terror – os Mitos assemelham-se ao mito cristão, especialmente no que se refere à expulsão do Mal do Jardim do Éden. Lovecraft escreveu que “todas as minhas histórias, mesmo quando não tenham relação entre si, baseiam-se na tradição ou lenda segundo a qual este mundo esteve habitado, em épocas anteriores, por outra raça que, em consequência das práticas da magia negra, perdeu seus direitos e foi expulsa, mas vive em algum lugar no exterior, disposta a voltar a tomar conta da Terra a qualquer momento”.
Como pretendia obter um determinado efeito, HPL não costumava mencionar os deuses ou seres que combatem o Mal, as entidades benignas que, na verdade, não surgem em suas histórias e não intervêm nas atividades do Mal. O único claramente definido foi Nodens, Senhor do Grande Abismo, que vive em companhia dos demais deuses do Bem em Betelgeuse e imediações, na constelação de Órion.
Ainda que esses deuses do Mal sejam apresentados como tendo habitado a Terra em épocas remotas, é possível detectar sua presença constante no século 20 de Lovecraft, provavelmente porque o exterior para onde foram não é exatamente um lugar fora do planeta, mas uma condição mais complexa que o próprio autor só foi definindo ao longo das histórias que escreveu. Essa presença já é percebida numa das primeiras histórias que faz parte dos Mitos, A Cor Que Caiu do Céu (The Color Out of Space, 1927. Também publicada no Brasil no livro Um Sussurro nas Trevas), onde HPL não apresenta qualquer descrição muito nítida da civilização extraterrestre ou mesmo nomeia os principais seres das estrelas. Nesse conto, um alienígena chega à Terra junto com um meteoro – que muito bem pode ser uma espécie de nave espacial – que cai na propriedade de Nahum Gardner e começa a transformar todo o ambiente num local desolado onde a vida vegetal não consegue se desenvolver e a própria vida humana começa a ser minada aos poucos, enquanto uma estranha luminosidade esverdeada invade tudo. A presença do Mal é vista inicialmente pela deterioração e as estranhas cores que tomam conta de um poço de água, e depois pela completa transformação das pessoas que moram no local, com seus corpos assumindo aspecto grotesco. Ao final, a cor que caiu na Terra dispara em direção ao espaço, como se retornasse ao local de onde veio, mas alguma coisa permanece escondida no fundo da terra, dando continuidade à contaminação, espalhando cada vez mais a área sem vida e infiltrando-se até mesmo nos pensamentos e nos sonhos dos que moram nas proximidades.
Mesmo sem apresentar a grandiosidade e a eloquência das descrições que surgiriam em histórias posteriores, essa já dá uma boa visão do que HPL entendia por terror cósmico, o Mal que vem não se sabe de onde, de anos-luz de distância, com uma idade tão antiga que não pode ser compreendida pelo homem. Os humanos ficam pequenos e atemorizados diante de seu oposto das estrelas, um deus que se alimenta deles e diante do qual eles não têm absolutamente qualquer possibilidade de salvação. Como um dos personagens diz, a pessoa sabe que o Mal está chegando, sabe que será devorada por ele, mas simplesmente não pode evitar de ficar sentada, esperando.

Esboço de Cthulhu, pelo próprio H.P. Lovecraft (1934).


Já no ano seguinte, em 1928, HPL apresentaria a questão com contornos mais definidos no conto O Chamado de Cthulhu (The Call of Cthulhu, na verdade, escrito antes, em 1926, mas só publicado depois. Também publicado em Um Sussurro nas Trevas), que se transformou numa de suas histórias mais conhecidas. O nome de Cthulhu tornou-se ponto central da mitologia elaborada por HPL e pelos escritores que vieram depois dele e que se dedicaram a criar mais histórias no mesmo ambiente, mas apesar disso não é o principal deus ou ser extraterrestre. Ele foi definido como o Grão-Sacerdote dos cultos antigos, o que mora na poderosa cidade submarina de R’Lyeh, e espera, sonhando, o momento de retornar e subjugar o mundo. Sua raça teria chegado ao planeta depois dos Antigos, com os quais primeiramente entraram em guerra e, depois, chegaram a um acordo em que os Antigos ficavam com o comando do mar e das terras mais antigas. Fisicamente, é uma espécie de mistura de polvo com dragão, e ainda com alguns traços humanos, uma aparência repulsiva como a de todos os seres do Mal elaborados pelo autor.
Como Cthulhu sonha e aguarda no fundo do oceano, nada mais natural que sua presença na Terra seja detectada por meio de sonhos horrendos que atormentam os personagens. Mesmo sem agir diretamente, ele continua procurando manter um certo controle sobre o planeta, sobre as mentes dos seres inferiores a ele, de tal forma que muitas pessoas também sonham com R’Lyeh e o monstro que se move lentamente em suas ruas esquecidas. São, de certa forma, atraídos uns para os outros, formando um culto diabólico, como uma prova de que o Mal existe e continua agindo no planeta. As pessoas que são presas pela polícia durante um desses rituais afirmam que cultuam os Grandes e Antigos, seres que tinham vivido muito antes da existência dos primeiros homens, chegados ao mundo recém-criados, vindos do céu. HPL propõe uma antiguidade inimaginável para esses seres, de tal forma que sua presença dificilmente poderia ser registrada no planeta em termos arqueológicos. Alguns restos de suas cidades colossais poderiam ser vistos como rochedos ciclópicos em ilhas do Pacífico, mas não seriam interpretados pelos seres humanos como restos de uma civilização.

O deus Cthulhu e a cidade de R'lyeh (Ilustração de Dominique Signoret/ Wikimedia).


Assim como Doris Lessing utilizou a noção de um desastre ou desalinhamento estelar como causa do fim de fluxo de energia entre Canopus e os demais planetas, de modo que Shammat pudesse alimentar-se de energias negativas, com Lovecraft já surgia essa noção, ainda que não fosse levada às últimas consequências. Segundo escreveu o autor, “quando as estrelas assumiam a posição correta, Eles se tornavam capazes de saltar de mundo em mundo, pelo céu; mas quando as estrelas estavam numa configuração errada, não podiam viver. Contudo, embora já não vivessem, na verdade Eles nunca morriam. Jaziam todos em casas de pedra na grande cidade de R’lyeh”. A configuração exata, propícia para eles, lhes dá a força, a energia para se levantar e dominar, como Shammat. Vivem quando o Bem não pode viver, alimentam-se do que o Bem não deseja. Sua composição física, no entanto, encontra-se mais próxima dos seres de PKD do que daqueles de Doris Lessing, uma vez que não se compunham inteiramente de carne e osso, possuindo uma forma, mas essa forma não era feita de matéria.

 

Capa da Weird Tales de fevereiro de 1928, que publicou pela primeira vez O Chamado de Cthulhu (Ilustração de Curtis Charles Senf).

A noção básica está mais próxima da ideia cristã tradicional de que o Mal foi realmente expulso, os homens foram salvos, mas o problema ainda não está resolvido, uma vez que a influência continua a se fazer sentir, o que pressupõe que, em tempos futuros, o combate voltará a ocorrer, com as forças do Mal se levantando mais uma vez para tentar nos subjugar. No entanto, a noção do fluxo de energias, propícias ou não, está mais diretamente ligada ao ocultismo e misticismo do que às religiões propriamente ditas. De certa forma, HPL elaborou uma confusão proposital, misturando conceitos de forma um tanto aleatória, como se percebe na ideia de que os seres não têm corpos materiais como nós conhecemos, mas ainda assim construíam cidades gigantescas para habitarem. E o controle que exercem sobre aqueles que subjugam também nada tem de imaterial. Os seres são tratados como verdadeiros escravos.

Ilustração mostrando o autor com as criaturas dos "mitos de Cthulhu", por Dominique Signoret.

Parece que a introdução de enorme quantidade de informações – às vezes contraditórias – tem, assim como em PKD, um objetivo definido, ainda que nem todos os críticos entendam dessa forma. Se em PKD era a criação de um clima de irrealidade, em HPL é a criação do clima de terror, de confusão, incompreensão e pequenez dos seres humanos diante das raças cósmicas. O próprio esquema narrativo do conto parece indicar esse caminho, com uma história dentro de outra, com uma pessoa contando a outra algo que aconteceu a ela a partir de uma observação de outra história contada por outra pessoa que, por sua vez, pode ou não ter vivido as experiências. Em meio às dificuldades em se capturar o narrador original, ou o tempo original da história, o que persiste é o acontecimento em si e sua grandiosidade e caráter de algo incompreensível. Ao mesmo tempo em que se afasta da realidade, tendendo a tornar-se nebuloso com a perda das origens, também se torna mais concreto pelas narrativas descritivas ao extremo.
O narrador, ou narradores, estão, geralmente, demasiadamente emocionados e aterrorizados para poder fornecer uma narração equilibrada. O que prevalece, então, é o sentido de terror, o clima que HPL estabelece, a impossibilidade em definir algo que não tem paralelo em nosso mundo, ou pelo menos em nossas experiências cotidianas, e não pode ser entendido completamente em termos humanos, de modo que qualquer aproximação será apenas parcial. Dessa forma, o excesso de adjetivos colocados nos textos de HPL, as insistentes descrições de estados emocionais alterados, a tendência para os superlativos, não surgem apenas como técnicas de narração defeituosas ou imperfeitas, como sugerem alguns críticos de sua obra, mas como uma autêntica narração de seres desesperados com sua impotência em expressar-se devidamente, em dar nome ao inominável.
Os personagens de HPL não poderiam escrever e se expressar de outra maneira que não a que é apresentada, simplesmente porque eles não sabem o que viram ou viveram, não podem interpretar em símbolos terrestres adequados o que não existe senão em seus sonhos mais antigos, nos pesadelos da própria raça humana, soterrados por camadas de eras.

A Constelação de Órion, com Betelgeuse, a supergigante vermelha, ao alto, à esquerda. A morada de Nodens, Senhor do Grande Abismo, e dos demais deuses do Bem (Foto: Rogelio Bernal Andreo, 2010).


A situação me lembrou uma cena do filme Contato (Contact, 1997), na qual a doutora Ellie Arroway (Jodie Foster) está viajando pelo universo e a nave para repentinamente diante de uma formação estelar magnífica, e ela diz que mandaram a pessoa errada para a viagem, que deveriam ter enviado um poeta; ela simplesmente não tinha palavras para descrever o que estava vendo e sentindo naquele momento, pois não tinha quaisquer parâmetros de comparação. Claro, ela estava maravilhada, enquanto os personagens de Lovecraft estão aterrorizados, mas a situação é semelhante.
Para HPL, os seres do Mal fazem parte da noção de pesadelo e temor ao desconhecido que acompanha os seres humanos desde tempos imemoriais. Inserem-se no próprio inconsciente coletivo, emergindo da memória racial não como deturpações de antigos medos, mas como seres reais, palpáveis, à espera de retornarem aos seus domínios. Essa noção aplica-se à outra, da narração baseada em sentimentos, uma vez que os seres são, para nós, puro sentimento, são o medo de toda a raça humana durante os séculos, tornado real. Como foi dito, não se compõem inteiramente de carne e osso. Têm forma, mas ela não é feita de matéria, porque é uma forma moldada por nós mesmos, interiormente, e é a forma do medo.
Em 1967, o filme Uma Sepultura na Eternidade (Quatermass and the Pit) utilizou um conceito semelhante para se referir aos medos ancestrais, ao supor que seríamos o produto de uma raça marciana composta por seres parecidos com gafanhotos, e cuja imagem repetia-se em nossa história através das imagens dos demônios, do próprio diabo.
O final de O Chamado de Cthulhu indica que Cthulhu está novamente vivo, que as estrelas estão no alinhamento correto para que ele restabeleça o controle sobre a Terra, com a cidade de R’lyeh surgindo do mar, e um novo tempo de terror sendo instalado entre os humanos.


E o ressurgimento dos seres do Mal na Terra continua a ser apresentado por Lovecraft em Um Sussurro nas Trevas (The Whisperer in Darkness, 1931), tido por alguns críticos como seu melhor momento, talvez porque, mais do que em outras histórias, aqui é mantido um clima de dúvida constante. O narrador nem por um instante vê realmente os seres aos quais a história se refere, ainda que ouça as vozes ou sons que podem ser o idioma falado por eles. Tudo leva numa única direção, mas é impossível se estabelecer definitivamente o que é real e o que é irreal, imaginação, sonho ou pesadelo. O que é real, sem sombra de dúvida, é o terror despertado no interior da pessoa, o terror que, como na história anterior, vem de eras anteriores aos seres humanos ou é causado pela tentativa de conviver com a ideia de distâncias e tempos inimagináveis, de deuses terríveis diante dos quais o ser humano é absolutamente impotente.
O que em PKD é o véu de Maia, a ilusão cercando os terrestres, levando-os a acreditar que o mundo é algo completamente diferente, e em Doris Lessing se apresentava como uma espécie de lembrança deturpada de um passado glorioso e paradisíaco, em HPL é uma memória que surge das camadas mais profundas da mente coletiva; não a memória do paraíso perdido, mas de um inferno que pode retornar a qualquer instante, que ainda está a espreita. A estrutura narrativa elaborada por HPL de certa forma também estabelece a ilusão, ainda que em moldes diferentes do que foi proposto por PKD.
No momento em que os seres humanos já começavam a assombrar-se com os avanços e benefícios da ciência, insinuam-se essas imagens de pesadelos medonhos, como se estivessem nos lembrando que nada é tão simples quanto aparenta e que nós ainda não estamos a salvo da influência do Mal.

 

Capa da revista Weird Tales, de agosto de 1931, com a publicação da história Um Sussurro nas Trevas (Ilustração de Curtis Charles Senf).

O clima de alucinação existente em determinadas passagens de suas histórias ajudam a sustentar essa noção, assim como a dubiedade dos acontecimentos e o próprio posicionamento de alguns personagens, que se equilibram precariamente entre a razão e a loucura absoluta. A situação é basicamente a mesma, ainda que em PKD a irrealidade e a confusão ocorram mais em nível intelectual, enquanto em HPL é mais físico e emocional. PKD levantou a questão do “não conhecimento” de uma forma geral, no sentido da impossibilidade de situar-se no universo, enquanto que HPL referiu-se ao “não conhecimento” no sentido da impossibilidade em compreender os seres horrendos e disformes que ameaçam a existência. Enquanto os personagens de PKD sequer sabem onde se encontram, os de HPL sabem perfeitamente, mas não conseguem compreender como as coisas podem ser daquela maneira, como eles podem ser tão insignificantes diante dos seres cósmicos e seus poderes.

Se a ideia de deuses ancestrais que ganham vida e surgem no mundo – às vezes invisíveis à maioria das pessoas, outras vezes nem tanto – foi principalmente inspirada por escritores como o irlandês Lord Dunsany, o galês Arthur Machen e o inglês William Hope Hodgson, os três muito pouco conhecidos no Brasil, a ideia de extraterrestres atuando na Terra em épocas remotas vem de Charles H. Fort e seu Livro dos Danados (The Book of the Damned, 1919). Em Um Sussurro nas Trevas essa influência é bem clara, explícita numa passagem em que personagens citam diretamente o livro. Como Fort fez ao elaborar seu livro, HPL introduz uma série de lendas e seres estranhos relatados ao longo da história, para relacioná-los à possibilidade – ou certeza – de que seres de outras galáxias nos visitaram, assim como inventou outros tantos livros, mais danados ou malditos que o de Fort, em que uma série de informações sobre esses seres são fornecidas aos incautos que se atrevem a lê-los.

De Machen e Dunsany vieram os deuses que, em determinados períodos e sob certas circunstâncias, podem ser vistos agindo na Terra, os mesmos deuses que em épocas remotas eram adorados pelos pagãos. De Hodgson veio a mesma sensação do terror cósmico, do espaço e tempo infinitos que o homem não consegue entender, e que é traduzido em forma do mais puro terror. Mas Fort propunha de fato uma série de acontecimentos, de anomalias registradas ao longo da história, e especialmente na época pesquisada por ele, ao final do século 19. HPL relaciona os prováveis extraterrestres agindo numa região dos EUA com outras lendas e relatos registrados no mundo, entre os quais os de anões, fadas, duendes, o Mi-Go ou Abominável Homem das Neves, ou as lendas indígenas dos EUA sobre o Pé Grande, de modo a dar a entender que se tratava de uma raça extraterrestre obrigada a se ocultar da humanidade por alguma razão desconhecida. HPL relaciona a passagem ou estadia desses seres monstruosos no planeta com todas as lendas ou histórias a respeito de civilizações desaparecidas da Terra, da Atlântida à Lemúria, das construções ciclópicas de Tiahuanaco a uma possível civilização antártica, de certa forma antecipando a onda de pesquisas realizadas, principalmente a partir dos anos 1960, que pretendiam levantar indícios da presença extraterrestre no passado distante da Terra. As referências não são tão explícitas e em tão grande número quanto em Shikasta, por exemplo, porque Doris Lessing, escrevendo nos anos 1980, teve à sua disposição uma quantidade maior de especulações em torno das quais trabalhar. HPL tinha o livro de Fort e pouco mais do que isso; geralmente, as doutrinas ocultistas ou teosóficas que especulavam em torno de uma relação entre magia e antigas civilizações como a de Agartha.

 

Nyarlathotep (Ilustração de Dominique Signoret/ Wikimedia).

Nessa história aparece mais uma vez o nome de Cthulhu, mas também aparecem inúmeros outros nomes estranhos como Yog-Sothoth, Necronomicon, Yuggoth, Tsathoggua, R'lyeh, Nyarlahotep, Azatoth, Nastur, Yian, Leng, o Lago de Hali, Bethmoora, o Signo Amarelo, L'mur-Kathulos, Bran e o Magno Inominado. Interessante é a noção de Yuggoth, o planeta que gira em solidão no espaço negro, além de Netuno, com cidades imponentes, um lugar onde tempo e espaço obedecem a leis diferentes, que levariam um ser humano à loucura.
Yuggoth seria o nono planeta do sistema solar, ou seja, Plutão, que foi descoberto em março de 1930, o mesmo ano em que HPL escreveu sua história, o que nos leva a acreditar que aproveitou o fato do surgimento de um planeta desconhecido, distante, frio e do qual se conhecia muito pouco, para inseri-lo na história. Mas, ao mesmo tempo, às vezes Yuggoth surge como um ser vivo, como se o planeta fosse um dos deuses do Mal. Também surgem os “mundos de vida” como K’N-yan, de luz azul, Yoth, de luz vermelha, e N’kai, um mundo negro e sem qualquer luz de onde veio o hediondo Tsathoggua.

Plutão, que pode ter sido a inspiração de Lovecraft para a criação do planeta Yuggoth (NASA / Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory / Southwest Research Institute, 2015).

Os livros malditos surgem como conhecimento e, às vezes, como meio de transporte, uma vez que sua leitura, sob determinadas circunstâncias, pode levar tanto à loucura quanto ao local onde alguns desses deuses aguardam pelo momento em que deverão retomar seu reino, seja em outros mundos, seja numa espécie de local onde tempo e espaço não existem ou não fazem sentido para os humanos. De uma forma inversa ao que se viu em PKD, esses livros podem ser entendidos como uma forma de ultrapassar o “não conhecimento”. A seu modo, eles revelam a verdade oculta por trás de nossa história e permitem que se conheça o que os mundos e os seres do Mal são, como se comportam, o que fizeram e o que ainda pretendem fazer no universo e, especificamente, na Terra. Assim como Valis pode ser uma porta de acesso ao Bem, ao conhecimento, os livros malditos são o acesso ao Mal, à fonte da confusão.

Uma visão de Yog-Sothoth (Ilustração de Dominique Signoret/ Wikimedia).


O mais famoso desses livros é, sem dúvida, o Necronomicon, escrito ou compilado pelo árabe louco Abdul al-Hazred, que surge como o mais completo e terrível guia para tudo de ruim que esses deuses do espaço são capazes de fazer e o que já fizeram na Terra, além de trazer uma série de fórmulas mágico-matemáticas que podem abrir passagens para outras dimensões ou trazer de lugares distantes os seres amaldiçoados.

Diz-se que a popularidade do Necronomicon foi tamanha que, durante alguns anos, colecionadores respeitáveis acreditaram que ele realmente existiria, e alguns anúncios de venda chegaram a ser publicados em jornais dos EUA e Inglaterra. Com o tempo, outros escritores resolveram dar continuidade à mitologia criada por Lovecraft, utilizando alguns dos seres inventados por ele, criando outros, e inventando outros livros malditos, como o De Vermis Mysteriis, de Robert Bloch, o autor de Psicose, que Stephen King também aproveitou em alguns de seus contos.

Numa história escrita em 1932 e publicada em 1933, Os Sonhos na Casa das Bruxas (The Dreams in the Witch House), mais uma vez é citado o Necronomicon, assim como o Livro de Eibon e o Unaussprechlichen Kulten, também inventados por Lovecraft. Talvez seja a história em que é apresentada de forma mais clara a ideia de que o conhecimento é capaz de levar uma pessoa a perceber uma realidade que se encontra oculta. Claro que, como nas demais histórias do autor, essa percepção de outra realidade é acompanhada de um sentido de alucinação, mas ainda assim é uma percepção muito mais física do que intelectual ou mental, ao contrário das mensagens subliminares de Valis. À leitura dos livros proibidos é associado um conhecimento de determinadas fórmulas matemáticas, cálculos não euclidianos e física quântica, realizados pelo estudante Gilman na tentativa de definir um fundo de realidade multidimensional que se encontraria por trás de certas alusões presentes nos contos góticos e nas lendas fantásticas vindas de tempos muito antigos.
Da mesma forma, HPL desenvolve a noção de que determinadas formas de construção, de arquitetura, certas inclinações de linhas e ângulos específicos, podem ser uma representação física dessas fórmulas – matemáticas ou de magia – que tanto podem representar a loucura para um indivíduo quanto uma possibilidade de transferência física do indivíduo para outra realidade. Quando Gilman vai morar num apartamento que possuiria esse tipo específico de construção de ângulos, seu modo de pensar começa a se modificar, aprofundando seu conhecimento, ao mesmo tempo em que sofre de alucinações e estranhos sonhos onde se vê em outros lugares, cercado por seres estranhos e aterrorizantes.
A presença do Mal se torna mais clara pela aproximação que o estudante Gilman estabelece entre as fórmulas matemáticas que vem desenvolvendo e o conhecimento mágico transmitido, geralmente secretamente, ao longo dos tempos, como resquícios de um conhecimento que já existiu sobre a face da Terra, pertencente aos povos extraterrestres que habitaram o planeta em épocas remotas. As fórmulas que conjuram demônios nada mais seriam do que uma forma de abrir uma passagem entre essas duas realidades, trazendo ao nosso espaço tridimensional um ser pertencente a outro mundo, ou levando um terrestre a outro mundo.
A diferença entre o ponto de vista de HPL e dos demais escritores citados é apenas que, para os outros, o Mal encontra-se no espaço físico da Terra, agindo diretamente no planeta, de uma forma ou de outra. Para HPL o Mal está distante, em outra dimensão do espaço, ou a milhões de anos-luz da Terra, mas com tal conhecimento das leis do universo que pode se deslocar imediatamente até nosso planeta, com a mesma facilidade de alguém que estica o braço para agarrar alguma coisa numa mesa próxima. Para o Mal que não conhece limites de tempo e espaço, tanto faz estar presente o tempo inteiro ou apenas interferindo em determinados momentos, estendendo seus braços – ou tentáculos, no caso de alguns desses seres – até nós. Assim, agindo por intermédio de alguns seres humanos, aqueles que se aventuram por esses conhecimentos proibidos, esses extraterrestres demoníacos conseguem manter o conceito do Mal como uma presença sempre constante em nossa história.

Às vezes, Lovecraft apresenta o planeta Yuggoth como um ser vivo, como se o próprio planeta fosse um dos deuses do Mal (FreeImages.com/ Piotr Pawel).

As viagens de Gilman ganham intensidade e realidade cada vez maiores, até chegar ao ponto em que se vê numa cidade estranha, alienígena, observando as estranhas e gigantescas construções num mundo que deve estar situado em algum ponto entre as constelações de Hidra e Argo. O sonho é tão real que os seres extraterrestres, que podem ser identificados como os Antigos, vão em sua direção, forçando seu retorno à Terra, onde ele acorda ao lado de uma estátua que quebrara no mundo distante. Assim, apesar de se distanciar de outras histórias nas quais o ponto central é a presença dos seres do Mal em nosso planeta, seja no passado, seja na atualidade, essa história deixa bem mais explícitas as formas de contato entre as duas realidades, a maneira pela qual é possível romper a distância entre os dois mundos e que, na verdade, é uma distância fictícia


As descrições mais detalhadas da vida extraterrestre em nosso planeta surgiriam em duas histórias publicadas em 1936: Sombras Perdidas no Tempo (The Shadow Out of Time, escrita em 1935), e Nas Montanhas da Loucura (At the Mountains of Madness, escrita em 1931). As duas são consideradas pela maioria dos críticos entre os melhores trabalhos de HPL e, sem dúvida, entre os mais estranhos.

Primeira publicação de Sombras Perdidas no Tempo, na revista Astounding Stories (Ilustração da capa de Howard V. Brown).


A estrutura de Sombras Perdidas no Tempo repete a de outras histórias do autor, com um personagem central atravessando experiências que beiram a alucinação, o incompreensível até mesmo para ele, ao mesmo tempo em que a riqueza de detalhes, as minúcias nas narrações dessas experiências conferem autenticidade. E, mais uma vez, ele introduz a noção de que é possível entrar em contato com outras realidades pela obtenção de determinados conhecimentos, aqui também fornecidos pela leitura dos livros malditos como o Culte des Goules, escrito por um Conde D’Erlette, o De Vermis Mysteriis, de Ludvig Prinn, o Unaussprechlichen Kulten, de Von Junzt, fragmentos do Livro de Eibon, além do incrível Necronomicon, do árabe louco Abdul al-Hazred.
A história segue a sucessão de experiências fantásticas do personagem Peaslee, professor da imaginária Universidade de Miskatonic que, em 1908, inesperadamente muda de personalidade, passando a se interessar por ocultismo e passa a realizar viagens misteriosas ao Himalaia e à Arábia. Volta a agir como antes apenas em 1913, sem saber de nada do que fez nesse meio tempo, a não ser o que leu nos jornais. Ele sofreu uma espécie de colapso fulminante durante uma aula em 1908 e, quando retorna à consciência em 1913, simplesmente continua a dar a aula, como se nada tivesse acontecido.
Mas as aventuras e as estranhas leituras deixaram nele a sensação de que sua concepção do tempo foi “sutilmente desordenada”, e ele passa a ter ideias a respeito da possibilidade de “viver numa época e lançar o espírito por sobre toda a eternidade”, com o objetivo de obter informações sobre passado e futuro. E, como em outras histórias, ele tem sonhos onde se vê em lugares desconhecidos, estranhos, imensos. Vê cidades inteiras e uma vegetação totalmente desconhecida, com as constelações numa configuração diferente, e vê tudo com tamanha realidade que consegue relacionar a flora que viu com a do Período Permiano ou Triássico da Terra, há 150 milhões de anos (N.E: as datas das eras e períodos geológicos da Terra foram alteradas desde a época de Lovecraft; os 150 milhões de anos que ele cita estariam dentro do período Jurássico da era Mesozoica). Passa a obter muitas informações por meio desses sonhos e dos estudos que realiza, sempre se mantendo na dúvida sobre a realidade de tudo aquilo.
A noção básica da mitologia de HPL, a presença de extraterrestres no passado longínquo do planeta, surge nesse conto com força inusitada. Peaslee fica sabendo que a humanidade é apenas uma – e talvez a menor – dentre as raças dominantes, tremendamente evoluídas, da longa história do planeta. Algumas dessas raças tinham vindo das estrelas, outras eram tão antigas quanto o próprio universo, e outras tinham se desenvolvido a partir de germes terráqueos. A maior de todas essas raças teria vivido há pouco tempo, até cerca de 50 milhões de anos antes do aparecimento do homem, e somente essa raça teria conquistado o segredo do tempo, conseguindo projetar-se no passado ou no futuro apenas com o uso de suas mentes. Ele descobre que, para viajar, os seres utilizavam sua capacidade mental extrassensória para procurar, na época para a qual desejavam se deslocar, uma mente apropriada. Então, penetravam na mente escolhida, assumindo o comando do corpo, enquanto a mente original era remetida para o período do viajante, passando a ocupar seu corpo até que ele resolvesse retornar.
Aprofundando-se cada vez mais nos sonhos, Peaslee sabe então que sua mente foi trocada e levada para o passado, ocupando o corpo de um dos seres pertencentes à Grande Raça, que tinham a aparência de imensos cones rugosos de três metros de altura. Essa talvez seja a referência mais clara de HPL à presença do Bem na Terra, ainda que ele o faça apenas para realçar a força e o terror causado pelo Mal. Essa Grande Raça era quase perfeita, não violenta, mas enfrentava um medo, cuja origem estava na existência de uma raça ainda mais antiga composta por entidades inteiramente alienígenas que tinham vindo do espaço e que dominaram a Terra e outros três planetas solares há cerca de 600 milhões de anos. Construíram cidades gigantescas de basalto, sem aberturas, dedicando-se a rapinar todos os seres que encontrassem. A Grande Raça enviou suas mentes para a Terra, vindos do mundo transgalático de Yith, e expulsou os seres do Mal para as cavernas no interior da Terra, lacrando suas entradas. Como possuía a capacidade de ver o futuro, a Grande Raça sabia que um grande perigo os aguardava e que viria justamente desses seres maléficos, de modo que mantinham guardas especiais nas aberturas lacradas do interior da Terra. Talvez seja a única referência a esse momento da mitologia de Lovecraft, quando os seres do Mal foram expulsos da Terra, ou melhor, seu domínio lhes foi tirado. A expulsão, para HPL, nem sempre significa ser afastado fisicamente do planeta.
Os sonhos de Peaslee começam a ganhar forma em 1935, quando ele recebe uma carta da Austrália, onde foram descobertos grandes blocos de pedra que indicavam a existência de uma cidade antiquíssima. Os desenhos encontrados nas pedras coincidem com aqueles feitos por Peaslee a partir de seus sonhos. Para complicar suas ideias, sabe que os aborígenes possuem lendas que se referem a um ancião gigante chamado Buddai, que estaria dormindo sob a terra, com a cabeça recostada ao braço, e que um dia iria acordar para devorar o mundo. No local, ele começa a reconhecer determinados sinais e caminhos, que o levam a passagens subterrâneas, onde encontra os arquivos e livros com as informações sobre todo o universo e as descrições dos seres que estavam aprisionados nos corpos estranhos. Vê os alçapões que fechavam as entradas para os mundos do interior da Terra, onde tinham sido aprisionados os seres do Mal, e percebe que eles estavam abertos e que das profundezas vinham sons inquietantes, indicando que os seres estavam finalmente livres para reiniciar seu domínio sobre o planeta.
Lovecraft nunca explicou detidamente a função da Grande Raça ou de qualquer outro ataque do Bem ao Mal na Terra. Mesmo aqui, quando surge a atuação desses seres não violentos, o Mal sempre prevalece, é a ideia básica em torno da qual estabelece os mitos, sempre evidenciando a pequenez da raça humana diante desses poderes e conhecimentos de milhões de anos e distâncias incalculáveis. A Grande Raça desaparece da história para um lugar desconhecido, enquanto o Mal permanece nas profundezas do planeta, esperando o momento exato para voltar a agir. Seus sinais estão em toda a parte, enquanto os sinais do Bem dificilmente são percebidos ou encontrados. Os personagens de HPL estão, sem dúvida alguma, bem mais desamparados do que os de PKD ou Doris Lessing, que pelo menos recebem mensagens, incentivos, percepções de que o Bem está esperando o momento de agir. Nos contos de Lovecraft, o Mal supremo está sempre prestes a surgir para dominar, e não se consegue divisar a atuação de forças que possam se contrapor a ele. A humanidade está absolutamente sozinha.


Essa noção de que o Mal cósmico continua vivo no planeta é reforçada com Nas Montanhas da Loucura, história que pode muito bem ser encarada como uma continuação do livro não finalizado de Edgar Allan Poe, As Aventuras de Arthur Gordon Pym (1837). Refere-se à existência dos restos de uma civilização desaparecida, na Antártida, ideia que Lovecraft habilmente incorporou à sua forma de elaborar o terror, imaginando uma das cidades mais fantásticas já apresentadas na literatura do gênero e, como sempre, deixando um espaço aberto para interpretações alternativas dos acontecimentos, introduzindo as tradicionais cenas de caráter alucinatório e personagens aterrorizados que nem sempre acreditam que o que estão vendo é real. Grande parte do conhecimento que o narrador despeja a respeito da cidade que encontram provém de informações obtidas da leitura dos livros malditos como o Necronomicon e os Manuscritos Pnakóticos.
Assim como no deserto quente da Austrália ainda se podia ouvir os ruídos dos seres maléficos, também no deserto gelado do polo os aventureiros encontram sinais dos antigos habitantes, não na forma de ruídos, mas na forma de 14 corpos mantidos em estado praticamente perfeito e relacionados pelo narrador com os Antigos, os seres que teriam criado a vida terrestre por zombaria ou engano, e que tinham sua idade avaliada em termos de dezenas de milhões de anos. Dessa vez, Lovecraft não espera o final da história para dar a entender que alguns desses seres ainda podem estar vivos. Vários membros da expedição são mortos, seus corpos destroçados, e alguns dos corpos dos extraterrestres simplesmente desapareceram.
A cidade que os remanescentes encontram incrustada nas rochas e no gelo é considerada tão antiga que nem sequer se teria lembrança dela. Atlântida e Lemúria poderiam ser consideradas civilizações atuais se comparadas com sua antiguidade. Existia no tempo dos dinossauros, mas seus construtores, os seres que ali viveram, deixaram mensagens gravadas nas rochas indicando uma antiguidade talvez ainda maior. A arquitetura – que Lovecraft muitas vezes apresenta como uma das manifestações físicas possíveis do Mal, capaz de alterar a mente e a forma de pensar das pessoas – é algo jamais visto na história humana, e a cidade se encontra absolutamente vazia, sem qualquer vestígio de ter sofrido com uma catástrofe, como se tivesse sido simplesmente abandonada.
Esses seres são chamados de Antigos, os que vieram das estrelas quando a Terra era um planeta jovem, ao que tudo indica transpondo o espaço entre as estrelas por algum método desconhecido ou utilizando suas vastas asas membranosas. Viveram sob o mar por muito tempo e lutaram contra adversários poderosos utilizando-se de armas baseadas em princípios energéticos desconhecidos e, também sob o mar, criaram a vida terrestre por necessidade de se alimentar e também para utilizar esses seres criados como escravos. Além de terem aniquilado seus inimigos cósmicos, como fizeram em outros planetas, produziram os seres que eram “massas protoplásmicas multicelulares capazes de transformar seus tecidos em toda espécie de órgãos temporários”, conhecidos como shoggoths, citados no Necronomicon.
Mais terrível do que a ideia de que esses seres tenham construído os shoggoths, é a de que eles teriam sido os reais construtores da raça humana, ou pelo menos dos primeiros mamíferos. Os personagens observam nos desenhos e mensagens esculpidos nas rochas a presença de um mamífero primitivo “usado às vezes como alimento e às vezes como bufão divertido pelos terrícolas, e cujas prefigurações simiescas e humanas eram inconfundíveis”.
Essa visão nos coloca diretamente no centro da questão da luta entre o Bem e o Mal no planeta, uma vez que seríamos produtos criados pelo Mal, ao contrário do que supõe Doris Lessing na série Canopus em Argos, quando deixa bem claro que os extraterrestres do Bem, ainda que não fossem responsáveis por todas as formas de vida humanas do planeta, tiveram influência decisiva no aperfeiçoamento da raça, não criando uma raça nova a partir de seus conhecimentos, mas introduzindo raças de outros planetas para que se mesclassem com a raça nativa. A impressão que se tem é que, se Canopus tivesse como adversários não Shammat e um simples desajustamento dos astros, mas os seres de Lovecraft, sua situação não seria tão simples.
Como ocorreu em Sombras Perdidas no Tempo, Lovecraft não define muito bem a função desses seres na Terra. Às vezes, são apresentados como terríveis simplesmente por serem alienígenas; são algo desconhecido e com imensos poderes, inclusive o de criar a vida. Mas não parecem, nem de longe, representar tão bem o Mal quanto os que vieram posteriormente. Ele não os relaciona diretamente com a Grande Raça já citada, mas sua história é semelhante. Evidentemente, isso tudo parece estar de acordo com as informações sobre a forma como o autor compôs seus mitos, ou seja, quase aleatoriamente, sem intenção declarada de estruturar uma sequência perfeitamente compreensível. As informações vão sendo acrescentadas nas histórias sem uma preocupação em informar corretamente, mas sim com o intuito de criar um clima geral no qual a tônica é confusão, o delírio e a impossibilidade de delimitar áreas exatas. Na verdade, trata-se de personagens humanos tentando entender a função e a atuação do Mal em nosso planeta, embasbacados diante da possibilidade, cada vez mais concreta, de que tenhamos sido criados por esses seres que, para nós, só podem ser vistos como repelentes.

Localização da cidade de R'lyeh, segundo Lovecraft e segundo August Derleth. Os locais são próximos ao polo de inacessibilidade do Pacífico, chamado "Nemo", o ponto do oceano mais distante de qualquer massa de terra (Ilustração: Nojhan/ Wikimedia, 2013).

Esse antigos habitantes enfrentaram problemas quando outra raça cósmica de seres em forma de polvo – provavelmente ligados à figura de Cthulhu – chegou ao planeta e deu início a uma guerra monumental, que culminou numa espécie de separação; os Antigos ficando com o comando do mar e das terras mais antigas, e os novos seres com as terras novas do planeta, que havia passado por um dilúvio. Mas os Antigos voltaram a dominar sozinhos quando as terras do Pacífico afundaram e levaram consigo a cidade de R’Lyeh, que em outros contos é tida como a morada de Cthulhu, aguardando o dia de seu retorno. Mas a história encontrada na cidade ainda conta que os Antigos tiveram de combater os shoggoths há 150 milhões de anos, quando os seres por eles criados adquiriram inteligência e os próprios Antigos perderam o conhecimento de como gerar novos seres. E, ainda, uma nova invasão de seres vindos do espaço cósmico, criaturas semifungosas, semicrustáceas, que obrigaram os Antigos a tentar o retorno ao espaço, mas eles também não mais possuíam os segredos das viagens interestelares. Os aventureiros também descobrem que os Antigos haviam abandonado a cidade antártica, seu último refúgio, indo viver nos subterrâneos da mesma, que podiam ser alcançados por túneis imensos em declive. E é nessas passagens, que resolvem explorar, que encontram os corpos arrebentados dos Antigos que haviam desaparecido do acampamento, o que os leva à conclusão de que os shoggoths ainda vivem em algum lugar das profundezas, de onde sobe um cheiro nauseante e uma névoa, como se estivesse sendo impelida para a frente pelo deslocamento de algum ser monstruoso que se movimentasse pelo túnel em direção a eles.
Nos momentos finais da história, antes dos personagens fugirem desesperados diante do ser que não chega a ser vislumbrado, ainda ouvem um som que se relaciona diretamente com o estranho som narrado na aventura de Edgar Allan Poe, quando algumas aves gritam “tekeli-li!”.

 

Capa da Astounding Stories, com Nas Montanhas da Loucura (Ilustração da capa de Howard V. Brown).

Mais uma vez, os seres monstruosos continuam vivos e, portanto, ainda ameaçando a existência dos humanos, ainda que esses não sejam propriamente os deuses vindos das estrelas, mas o produto melhorado de sua engenharia genética. A natureza de sonho ou alucinatória da história é providenciada, em grande parte, pelo acúmulo de informações obtidas pelos personagens na cidade magnífica, o que os leva a repetidos momentos de perplexidade e assombro. Estão diante de uma verdade que vai contra tudo o que conheciam até então, e o resultado é uma espécie de torpor e demência, estado do qual o narrador não consegue mais sair após voltar para casa. Ele não viu a face do Mal, mas esteve muito próximo dela, dos resultados da ação de mentes e objetivos para os quais os seres humanos não têm explicações racionais.
O conhecimento, em Lovecraft, não significa nada de bom, mas apenas o contato mais íntimo com a verdadeira natureza do Mal que ainda se movimenta nos subterrâneos da Terra. O Bem, o que quer que ele seja, qualquer que tenha sido sua atuação no planeta, se é que teve alguma, encontra-se afastado, distante, tão longe que sequer pode ser citado ou lembrado. No mundo de Lovecraft só há espaço para o Mal e o terror absolutos. Enquanto Doris Lessing compôs sua obra sobre a influência extraterrestre na Terra em torno da ideia de que todos os mitos, lendas e religiões surgiram a partir da presença benéfica desses seres entre nós, ao longo da história, HPL entendeu que todas as lendas, mitos e religiões foram estruturadas em torno do que restou de lembranças da passagem desses seres maléficos no planeta. Opostos totais. Nas histórias de Lovecraft não existe qualquer possibilidade de fluxo positivo de energia, qualquer possibilidade visível de redenção, nenhum deus querendo penetrar num mundo fechado. Talvez por isso seja ainda mais aterrorizante. O mundo não está lacrado pela presença do Mal, mas ainda assim não se vislumbra qualquer tentativa de nos salvar. Em PKD e Lessing, os criadores estão a postos para ajudar, mas em HPL o criador é o próprio Mal, o incompreensível e, portanto, inatingível. Só podemos contar com nossas próprias forças, o que é muito pouco diante do que se fica sabendo a respeito desses seres que, se já vieram tantas vezes ao planeta, podem chegar novamente, nos esmagando completamente.


Como já foi dito no início do capítulo, ao falar sobre sua obra, HPL disse que os seres do Mal que elaborou nos Mitos foram expulsos da Terra e obrigados a viver no exterior devido a práticas de magia negra – que, em sua visão, nada mais é do que a aplicação de determinadas fórmulas matemáticas de forma física – mas essa questão jamais foi explorada em sua totalidade, uma vez que muitos seres permanecem nas profundezas da Terra. Mas as histórias dão a entender que os deuses do Mal não vivem apenas num único espaço e tempo, porém em universos variados e complexos. Esse ponto de vista pode ser compreendido também com a leitura de uma série de histórias conectadas umas às outras e nem sempre muito bem recebidas pela crítica, e que se referem a uma dimensão dos sonhos, que pode ser vista como um universo paralelo. Essas histórias são: O Depoimento de Randolph Carter (The Statement of Randolph Carter, 1919), Em Sonhos, À Procura da Desconhecida Kadath (The Dream-Quest of the Unknown Kadath, 1926), A Chave de Prata (The Silver Key, 1926) e Através das Portas da Chave de Prata (Through the Gates of the Silver Key, 1932), esta última escrita em parceria com E. Hoffman Price. Podem ser encontradas reunidas no livro Os Demônios de Randolph Carter, publicado pela editora portuguesa Estampa. Não incluída nesse livro ,mas também pertencente à série de histórias com o personagem Randolph Carter, é O Inominável (The Unnamable), de 1923, publicado em 1925.
Estão presentes os grandes seres das estrelas e do tempo, os deuses malditos que fazem parte dos Mitos de Cthulhu, mas o ambiente é inusitado nas histórias do autor e completa esses mitos de forma estupenda, de certa forma ampliando seu significado. O primeiro conto traz Carter acompanhando um amigo a uma aventura num cemitério, uma investigação dos horrores que podem se esconder por baixo de uma cripta, e na qual o amigo penetra, para espanto de Carter que, ao chamar pelo amigo, apenas ouve uma voz respondendo-lhe das profundezas, dizendo que o amigo está morto.
Mas é de fato no segundo conto que algo totalmente novo e diferente começa a tomar corpo. Carter possui, de alguma forma, uma capacidade para penetrar e se locomover no mundo dos sonhos terrestres, onde já esteve diversas vezes e com o qual tem muita familiaridade, conhecendo pessoas e outros seres, assim como a geografia do local. Carter tem uma obsessão, que é a procura da cidade chamada Kadath e de uma cidade maravilhosa que vislumbrava de Kadath, mas cujo acesso estava negado pelos deuses. Então, ele se locomove nesse mundo dos sonhos tentando chegar ao local que ninguém sabe onde fica, pedindo ajuda de alguns amigos, como os gatos, com quem conversa em sua própria língua, e dos vampiros, com quem também tem um contato bastante amigável.
Lovecraft se move do mundo físico para o imaginário com enorme facilidade, uma vez que no conto Nas Montanhas da Loucura o personagem vislumbrou, da fantástica cidade extraterrestre onde se encontrava, uma elevação distante que relacionou com a perdida Kadath que, aqui, Carter tenta atingir através de outra dimensão, como se esses deuses cósmicos possuíssem a capacidade de construir a mesma obra em dois mundos diferentes, em universos separados, ou estender sua realidade por diferentes níveis. Talvez seja nessa apresentação do mundo dos sonhos como um universo real, subjacente ao nosso universo físico, que Lovecraft mais se aproxima das noções elaboradas por PKD e Doris Lessing a respeito das várias camadas de realidades existentes em torno do planeta, ainda que na obra de Lovecraft todas elas estejam total ou parcialmente comprometidas pela presença do Mal. Apesar do autor não se referir a essa dimensão como uma passagem para reencarnações na Terra, fica evidente que os deuses e vários dos seres que nele habitam têm a capacidade de transitar entre os mundos, passando de um nível para outro por meio de capacidades adquiridas, seja lá de que maneira.

 

The Dream Quest of Unknown Kadath (Ballantine Books).

Esse mundo que Carter percorre é repleto de perigos, mas também de belezas insuperáveis, com mundos subterrâneos repletos de seres fantásticos e passagens que levam do mundo dos sonhos ao mundo da vigília e vice-versa, às vezes com uma topologia bastante estranha, como se o mundo funcionasse em vários planos diferentes, e um primeiro plano nem sempre levasse necessariamente ao segundo. Galeras negras carregam-no à face escura da Lua, onde é feito prisioneiro, porém libertado pelos gatos, os quais, por sua vez, ele ajuda numa batalha contra outros inimigos, assim como faz com os vampiros, que o ajudaram a sair de um mundo subterrâneo repleto de perigos e completamente escuro.
Os deuses malditos rondam por essas regiões, estabelecem seus domínios tanto quanto nos confins do espaço, e sua presença é sentida em cada passo; todos os habitantes dessa dimensão os conhecem. Ao longo da narrativa, Lovecraft cita Nodens, Azathoth – a entidade cega e destituída de mente que governa o tempo e o espaço a partir de seu trono negro no centro do Caos, e blasfema e cospe no centro do infinito – e Nyarlathotep, com quem Carter chega a conversar diretamente. Parece que o que era apenas sentido em nossa dimensão pode ser experimentado de outras formas no mundo dos sonhos, com os deuses sentindo-se mais à vontade para pequenas aparições e até mesmo para dar conselhos. Por outro lado, esses deuses também são apresentados divididos em duas categorias distintas: uns são os que têm o poder de agir sobre o mundo dos sonhos terrestres; outros só têm poder sobre o mundo da vigília. Apesar dos dois mundos ou dimensões estarem separados por barreiras um tanto sutis, os deuses também precisam obedecer certas leis ou regras.

 

Azathoth, blasfemando no centro do universo (Ilustração de Dominique Signoret/ Wikimedia).

Como em Nas Montanhas da Loucura e em várias outras histórias do autor, é dado grande destaque à descrição da arquitetura de cidades fantásticas, mais antigas do que a história, cidades de proporções monumentais e com tal feitio que a mente humana tem dificuldades em compreendê-las. A quantidade de cidades, povos, locais e seres citados é, talvez, sem paralelo nas histórias de Lovecraft, nesse que talvez seja o mais complexo universo particular criado pelo autor.
O entendimento do mundo dos sonhos como uma dimensão paralela é reforçado pelas informações que surgem nos contos seguintes. A Chave de Prata apresenta mais uma vez Randolph Carter, já com alguma idade e num período de sua vida em que julgava ter perdido a capacidade de sonhar e encontrar aquele mundo maravilhoso de sua infância. A Chave de Prata é um legado de um parente e também uma espécie de senha que possibilita a passagem para a dimensão paralela, a dimensão dos sonhos e dos deuses do cosmo. Carter retorna à casa de sua infância onde, aos nove anos, sofreu uma transformação total em sua personalidade no instante em que descobriu a passagem para o mundo dos sonhos. Ao retornar com a chave, Carter igualmente realiza uma viagem no tempo, e passa a ser ele mesmo aos nove anos, iniciando mais uma vez sua caminhada na dimensão paralela.

Capa da Weird Tales de Julho de 1934, com a primeira publicação de Através das Portas da Chave de Prata (Ilustração de capa de Margaret Brundage).


O último conto, Através das Portas da Chave de Prata, apresenta Carter como um personagem quase próximo dos estranhos seres das estrelas, uma vez que consegue obter o conhecimento com o qual viaja no tempo e espaço, assim como descobre a forma de assumir o corpo de outros seres, suprimindo suas personalidades e reforçando a sua própria, mais ou menos como o extraterrestre fez no conto Sombras Perdidas no Tempo.
Carter é um personagem interessante na obra de Lovecraft porque é um dos poucos, ou talvez o único ser humano que consegue atingir tamanha dimensão, circulando no universo dos seres malditos com imensa facilidade, aprendendo com eles, exigindo uma participação mais ativa nos mundos que eles governam ou governaram. Existe uma série de personagens que buscam o conhecimento proibido pela leitura dos livros malditos, muitos que conseguem obter resultados surpreendentes, como o estudante de Os Sonhos na Casa das Bruxas, mas o final desses personagens é geralmente trágico; ou são levados para algum tipo de loucura, ou simplesmente sofrem com sua incapacidade em compreender esse universo e suas leis. Carter passa por tudo isso e sempre cresce em conhecimento e controle de suas ações, enfrentando momentos ruins e a própria fúria dos deuses, em determinados momentos, mas sem sofrer as consequências terríveis dos demais personagens. E não é um personagem particularmente preocupado com o Bem e o Mal, mas apenas com o que pode conseguir para si mesmo, que é o acesso irrestrito à dimensão dos sonhos.
Esses contos geralmente não são considerados pelos críticos e estudiosos da obra de H.P. Lovecraft como pertencentes aos Mitos de Cthulhu, mas a ligação, em especial no segundo conto, é evidente.