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autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data25/4/2010
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Um papo sobre Matrix e o estranho mundo em que pensamos que vivemos.
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Gilberto Schoereder

O que mais há para se falar sobre Matrix, um dos filmes mais bem sucedidos e comentados dos últimos tempos? Parece que, no ano de estreia, Matrix só perdeu espaço na mídia para Star Wars, o que não é de estranhar se levarmos em consideração os milhões gastos em publicidade por George Lucas.
Ainda assim, Matrix conseguiu firmar-se como o melhor filme de ficção científica do ano, ou melhor, dos últimos tempos, e a razão é muito simples, ainda que nem sempre tão visível. Num artigo do escritor de FC David Brin, publicado na Folha de S. Paulo em julho de 1999, ele dizia que um dos problemas do chamado "entretenimento descompromissado de hoje" – e ele se referia a Star Wars, Episódio 1 – é que, em meio aos efeitos especiais mirabolantes, as pessoas tendem a se esquecer do óbvio, como a trama, o enredo da obra. É verdade que muitos acharam que ele foi fundo demais ao analisar os aspectos políticos e morais do filme de Lucas, mas seu pensamento está correto e, por um outro lado, aplica-se como um luva a Matrix.
O filme dos irmãos Larry e Andy Wachowski conseguiu o que Guerra nas Estrelas jamais chegou perto de obter: unir o "entretenimento descompromissado", com muitos efeitos especiais, a uma história que traz o que de melhor existe na ficção científica moderna.
Basicamente, o filme trabalha em torno de um questionamento do que seja a realidade. Imagine-se passeando à beira de um lago, num dia ensolarado de verão, acompanhado por alguém de sua preferência, sem qualquer compromisso a não ser "aproveitar o dia", como diria o "oh! capitão, meu capitão". Senta-se próximo à água e adormece. E, quando acorda, o mundo inteiro foi modificado. O lago virou um poço de lama nauseabundo, o céu azul de verão deu lugar à precipitação de partículas de chumbo quente, os políticos mais detestáveis chegaram ao poder e sua adorável companhia mais parece ter sido costurada às pressas por um Frankenstein que tomou LSD. E o que é pior: dizem que esta é a realidade e você vai ter que engolir.
Assim, em que acreditar? No que existia antes, ou no que ficou conhecendo depois? É como no clássico conto oriental, do homem que não sabia se era um homem sonhando ser borboleta, ou uma borboleta sonhando ser homem.

Sonhos e Realidade
Alguém escreveu que Matrix era o Blade Runner dos anos 1990, e pode ser que seja, ainda que não pelos motivos apresentados. Tudo bem, tudo bem, o filme está repleto de citações e referências a momentos importantes do que se costumou de chamar cultura pop, além de muitas referências à religião. Tudo isso é extremamente interessante, mas Matrix aproxima-se de Blade Runner por outro aspecto.
Foi dito que o filme mostra o que teria acontecido ao planeta se os androides de Blade Runner tivessem vencido. Bobagem, já que os andróides não queriam vencer, mas sim viver mais, tornar-se humanos, ou o mais próximo disso possível. O inferno já estava instalado na Terra há muito, e não tinham sido os andróides os causadores do problema. Blade Runner lida com a questão da identidade e, por tabela, da dificuldade em se definir o que é real e o que é irreal, o original e a cópia. Esse era um tema recorrente nas histórias de Philip K. Dick, o autor de Blade Runner, falecido em 1982. Era tão difícil perceber a cópia que, para detectar andróides era preciso um exame profundo. E, ainda assim, Deckard/Harrison Ford prefere ficar com a cópia e foge com ela para uma floresta idílica, uma vez que os originais eram ruins demais para se aguentar.
Matrix lida com essa questão, talvez de maneira um pouco diferente. Mas, no fundo, é a mesma coisa. E se o nosso mundo não for o que imaginamos, o que vemos? A diferença entre a realidade e a "realidade criada pelas máquinas" para nos governar é mínima. Tanto é assim que o Judas de Matrix prefere passar a vida conectado e comendo bifes imaginários – porém deliciosos –, do que ter de enfrentar a verdade. O que é real passa a ser apenas uma questão de ponto de vista, político ou moral. Na verdade, como é possível se definir entre duas realidades igualmente palpáveis? E se existem duas, porque não uma terceira, quarta, etc.?

Mais Influências
O filme dos irmãos Wachowski nasceu de um roteiro para uma série de histórias em quadrinhos que, segundo eles, transformou-se num roteiro para cinema bastante denso, com "um tom de tese universitária", dizem. Mas é possível encontrar mais referências em histórias de ficção científica do próprio Philip K. Dick, que já foi citado. Elas podem ser encontradas em livros como O Homem Mais Importante do Mundo (Time Out of Joint, 1959), Labirinto da Morte (A Maze of Death, 1970) ou Ubik (Ubik, 1969). Mas o autor de Blade Runner foi mais explícito nas citações religiosas do que os Wachowski em pelo menos dois livros: O Mistério de Valis (Valis, 1981) e A Invasão Divina (The Divine Invasion, 1982).
Nessas duas obras, ele trabalha em torno do conceito de que a Terra não é o que imaginamos que seja. Em outras palavras, uma realidade alternativa foi construída para nós, pobres seres mortais, por entidades representantes do Mal. Essas entidades cercaram o planeta, impedindo a entrada de informações vitais que fariam com que pudéssemos perceber a verdade, ver o planeta e a vida como ela realmente é. Zonas de inconsistência nublam nossa visão, mantendo-nos numa espécie de limbo. Ou, como em Matrix, comendo suculentos bifes imaginários.
Não parece ter sido por acaso que os Wachowski elaboraram as referências ao Budismo e Cristianismo no filme. Neo/Reeves está nitidamente relacionado ao messias da tradição judaico-cristã, aquele que há muito é esperado pelas pessoas para libertá-las do Mal, ou seja, da irrealidade de que é feita seu mundo.
Falou-se que a referência ao Budismo estaria no fato de Neo reencarnar periodicamente em novos corpos, mas não é isso que está acontecendo em Matrix. Na verdade, em certas vertentes do Budismo costuma-se dizer que o mundo é Maya, ou seja, é ilusão. Nada do que vemos e vivemos nessa encarnação pode ser considerado real, uma vez que o véu de Maya impede que vejamos a realidade. Apenas os escolhidos podem ultrapassar essa barreira e compreender a natureza do mundo e, assim, obter a iluminação.
O importante em Matrix é perceber que um bom filme de ficção científica – ou de terror, fantasia ou qualquer outro gênero – oferece mais do que apenas efeitos especiais mirabolantes. Os de Matrix são, de fato, sensacionais e criativos e é de se esperar, e é ótimo que os filmes de ficção científica se utilizem da tecnologia desenvolvida para apresentar cenários com credibilidade, maravilhosos, capazes de tirar o fôlego dos espectadores.
Mas existem centenas de filmes com efeitos sensacionais que jamais atingiram o mesmo nível ou despertaram o mesmo interesse, tanto da crítica quanto do público. E existe uma motivo para isso: boas histórias, com conteúdo e contadas de forma correta. É absolutamente possível realizar grandes filmes, especificamente de FC ou terror, sem grandes gastos com efeitos especiais, e os exemplos ao longo da história do cinema são numerosos. Mas o inverso dificilmente se aplica. Filmes com efeitos sensacionais, mas com histórias pobres, não se sustentam por muito tempo.
Em Matrix, como em tantos outros grandes filmes de FC, o que temos a fazer é simplesmente seguir o coelho, penetrar no mundo do outro lado do espelho e perceber que, por trás da realidade aparente, existe uma outra realidade a ser descoberta, tão ou mais interessante que a primeira.