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A Vida no Computador

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autorGilberto Schoereder
publicado porGilberto Schoereder
data22/1/2006
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O excelente filme O 13º Andar passou praticamente despercebido quando lançado nos cinemas do Brasil, mas traz uma história de FC que vale a pena conhecer.
O excelente filme O 13º Andar passou praticamente despercebido quando lançado nos cinemas do Brasil, mas traz uma história de FC que vale a pena conhecer.

Gilberto Schoereder

Às vezes, acontece de um bom filme, por alguma razão, passar despercebido, seja do público, seja da crítica. Em 1999, isso aconteceu novamente e a vítima foi O 13º Andar (The Thirteenth Floor). Não seria de estranhar que os norte-americanos considerassem o fracasso do filme como um sinal evidente do azar que eles costumam associar ao número preferido de Zagallo. Mas, no caso, deve se tratar mais de um erro de estratégia do que qualquer outra coisa.
Tudo indica que o filme dirigido por Josef Rusnak teve problemas por apresentar um enredo semelhante ao de Matrix, que estreou na mesma época, sendo confundido com mais uma das imitações baratas que sempre procuram se aproveitar da fama dos outros.
Não era o caso, uma vez que O 13º Andar é um filme original, e foi apenas o estrondoso sucesso de crítica e bilheteria de Matrix que sufocou as possibilidades de O 13º Andar ser visto com mais cuidado. Isso pode ser feito agora.
É verdade que os dois filmes referem-se a um mundo que não é exatamente aquele que se imagina, e buscam inspiração na realidade virtual, mas as semelhanças param por aí. O 13º Andar, baseado no livro Simulacron-3, de Daniel F. Galouye não se propôs a seguir pela mesma linha de ação e trabalhou com um orçamento nitidamente menor. Não existem sequências com efeitos especiais mirabolantes, em ritmo alucinante, ainda que a reprodução da cidade de Los Angeles dos anos 1930 seja sensacional, assim como os figurinos.
Na verdade, pode-se dizer que a produção de O 13º Andar teve início em 1973, quando Michael Ballhaus trabalhou como fotógrafo na produção para a TV alemã, Welt am Draht, dirigida por Rainer Werner Fassbinder, que foi a primeira adaptação do livro de Galouye. Ballhaus adquiriu os direitos da história para o cinema, tentando levá-la às telas durante muitos anos. A situação só mudou quando ele se encontrou com o diretor e produtor Roland Emmerich (de Stargate e Independence Day), que resolveu tocar o projeto.

Criando a Vida
Imaginem computadores tão desenvolvidos que podem criar toda uma cidade virtual, com todos os elementos necessários: ruas, casas, prédios, clima e seres humanos que interagem com o ambiente, uns com os outros e que têm a capacidade de tomar suas próprias decisões. Mesmo que tudo tenha sido programado pelas mentes brilhantes dos cientistas Douglas Hall (Craig Bierko) e Hannon Fuller (Armin Mueller-Stahl), os seres desse mundo inventado sentem as mesmas emoções e têm os mesmos problemas dos seres de carne e osso.
Por meio de um aparelho de conexão, os cientistas conseguem penetrar nesse mundo, literalmente possuindo o corpo das personalidades que criaram e vivendo uma vida paralela. Mas é claro que as coisas não podem continuar na mesma se alguém descobrir que deus, o próprio criador do universo, está na cidade.
Fuller, o dono da empresa, resolveu que o mundo seria a Los Angeles de 1937, recriando o cenário de sua juventude. Ele descobriu algo de suma importância e, sabendo que pode estar sendo perseguido, deixa uma mensagem para Hall, no mundo virtual. A trama ganha contornos mais sinistros quando Fuller é assassinado e todas as pistas indicam Hall como o assassino. Sem lembrar-se do que aconteceu na noite do crime, Hall precisa penetrar na Los Angeles de 1937 e descobrir qual a mensagem que Fuller tinha para ele.
O filme segue de perto a história do livro, passando longe das referências religiosas que abundam em Matrix e evitando os problemas de narração que existem na obra de Galouye. E ainda oferece mais uma interessante surpresa ao final.
Para quem gosta de ficção científica, é um daqueles filmes que não se pode deixar de ver. Afinal, nem sempre a ficção científica no cinema é tratada com tanta competência, e com uma história tão boa.


O Autor
Não se pode dizer que o escritor norte-americano Daniel F. Galouye (1920 – 1976) esteja entre os mais conhecidos da FC, especialmente no Brasil, onde só se tem notícia de dois livros publicados. O mais famoso é, sem dúvida, Simulacron-3, também conhecido pelo título Counterfeit World. Publicado nos EUA em 1964, chegou ao Brasil em 1968, pela Coleção Galáxia 2000, da Editora O Cruzeiro. Também foi lançado Os Invasores Andam Entre Nós (A Scourge of Screamers, 1966), pela Editora Bruguera.
Galouye começou escrevendo FC em 1952, com o conto Rebirth, para a revista Imagination. Apenas em 1961 publicou seu primeiro livro, Dark Universe, considerado seu melhor trabalho e indicado para o prêmio Hugo. Em seguida vieram Lords of the Psychon (1963) e os dois já citados. Seu último livro foi The Infinite Man (1973). Acredita-se que sua carreira foi grandemente prejudicada pelos ferimentos que recebeu na II Guerra Mundial, cujos efeitos nocivos estenderam-se por toda sua vida.
Simulacron-3 apresenta semelhanças com os temas que Philip K. Dick vinha desenvolvendo na mesma época e até mesmo antes disso, e é possível que tenha sido inspirado por ele, ainda que sem utilizar as referências religiosas e filosóficas costumeiras em Philip K. Dick.